A DIVISIBILIDADE DOS AROMAS

 

Pela janela vem o cheiro da manhã, da relva

e das rosas salpicadas de fresco que se casam com o cheiro

dos lençóis sonolentos. Ao bater a porta já só sinto

o meu perfume, o que pomos por cima das certezas

e das dúvidas, por cima dos segredos que trespassam a pele.

Em breve me confundirei com o cheiro dos outros, daquele homem

vergado pelo saco de batatas, da florista a compor as margaridas,

da peixeira à porta da vizinha mostrando as goelas sangrentas

(talvez porque se tenha levantado cedo e apregoar assim

fere a garganta), das crianças a caminho da escola, de todos

os que hão-de cruzar o meu dia e de ti que hás-de cruzar

também a minha noite. Contar-te-ei todas as horas com a mistura

dos aromas que me compõem e ouvirei na tua pele

a subtil diferença entre os dias. Amanhã fecharemos a porta

e o teu cheiro irá entranhado em mim até uma distância infinita

das rosas que cantam à janela e seguirei pela estrada

estendendo a pele às dádivas do dia.

 

In Da Alma e dos Espíritos Animais (2001)

 

 

LA DIVISIBILITÉ DES ARÔMES

 

Par la fenêtre vient l'odeur du matin, de l’herbe

et des roses saupoudrées de fraîcheur qui se marient à l'odeur

des draps somnolents. Comme la porte claque je ne sens déjà

que mon parfum, ce que nous mettons par-dessus nos certitudes

et nos doutes, par-dessus les secrets qui transpercent notre peau.

Bientôt je me fondrai dans l'odeur des autres, de cet homme courbé

sous le sac de pommes de terre, de la fleuriste disposant ses marguerites,

de la poissonnière à la porte de la voisine montrant les branchies

sanglantes (peut-être parce qu'elle s'est levée tôt et que crier ainsi

blesse la gorge), des enfants sur le chemin de l'école, de tous ceux

qui croiseront ma journée et de toi qui croiseras aussi ma nuit.

Je te raconterai toutes les heures avec le mélange

des arômes qui me composent et j'entendrai dans ta peau

la subtile différence entre les jours. Demain nous fermerons la porte

et ton odeur ira imprégné en moi jusqu'à une distance infinie

des roses qui chantent à la fenêtre et je poursuivrai ma route

en livrant ma peau aux offrandes du jour.

 

Trad. Catherine Dumas