|
Inclina-te diante do freixo da montanha.
Debaixo dele, de rosto para cima,
jaz o teu irmão. No seio da terra
os ossos escurecem, as ervas brotam por entre as
vértebras.
Inclina-te diante do freixo da montanha, da sua
casca de pele,
o colar pendurado num ramo em forquilha.
Inclina-te
à chama da copa da árvore.
As raízes furam o peito do teu irmão.
As raízes furam a fronte do teu irmão.
O freixo da montanha está cheio de vozes,
quando chega a Primavera irrompem como folhas.
Quando a Laika, abandonada no espaço, ladra,
as luzes nas cabanas acendem-se uma a uma.
Talvez sejam já sete horas, o ferro pode cair
do céu, mas a lei da física
escrita na pedra ou na concha do gastrópode
ainda guia esta aldeia azul.
E o mesmo faz a lâmpada votiva acesa,
aquecendo o seu coração de óleo
e sombras-sonho dançando na parede.
Algures um cão solitário prescruta lá em baixo a
terra.
Estou a guardar este planeta, poderá estar dizendo
quando ladra, mas, como se sabe, essas estações de
rádio,
todas essas mensagens, o céu está cheio delas,
cheio do tinido e do zumbido dos satélites.
|